E quando alimentos “gostosos” são usados para recompensar as crianças?

Comida como recompensa

Fonte: http://www.todaysparent.com/toddler/harm-in-bribing-kids-with-food

Educar os filhos não é tarefa fácil. O papel dos pais envolve grande responsabilidade e uma série de demandas contínuas. Desde muito cedo, crianças pequenas são treinadas em seus comportamentos para serem bem-educadas e corresponderem ao padrão comportamental esperados para se viver em sociedade.

Dentre as várias possibilidades de ações dos pais frente ao bom ou mau comportamento dos filhos, algumas pesquisas no âmbito alimentar tem dado foco às práticas de recompensa por comportamento. Essa estratégia envolve a oferta de alimentos agradáveis ao paladar (ricos em gordura, sal e açúcar) em troca de bom comportamento, ou a retirada destes devido a mau comportamento. Essa forma de alimentar os filhos não tem motivação nutricional, pois o foco está sobre o comportamento almejado pelos pais. Em curto prazo, pode parecer ser uma maneira eficaz para moldar o comportamento da criança. Porém, há uma série de estudos associando essa prática a repercussões negativas como o ganho de peso e comportamento alimentar obesogênico, como por exemplo, ensinar a criança a se alimentarem por razões emocionais, a comer em excesso e petiscar mais alimentos de alta densidade calórica. Isso porque tende a interferir na capacidade normal que desde muito cedo a criança tem de autorregulação quanto à ingestão dos alimentos, considerando sinais internos de fome e saciedade.

Outras vezes, na intenção de que a criança coma um dado alimento, (normalmente vegetais), através da prática de recompensa, o alimento usado como prêmio (guloseimas) tende a ser mais desejáveis pela criança do que o pretendido.

Recompensas alimentares parecem deturbar o que tem de natural no processo de se alimentar.

Nesse sentido, é importante que o tema da recompensa alimentar tenha visibilidade, seja conhecido e explorado entre os profissionais de saúde para que um trabalho cuidadoso de alerta e conscientização chegue aos pais e cuidadores. Dessa forma, ao incluir este assunto nas consultas pediátricas o profissional promoveria discussões que auxiliassem os pais a ampliar seu repertório para refletir sobre o significado que ensinam a criança a dar ao alimento.

Por Júlia Feltrin Ivers e Denise Ely Bellotto de Moraes.

REFERÊNCIAS:

BLISSETT, J; HAYCRAFT, E, FARROW, C. Inducing preschool children’s emotional eating: relations with parental feeding practices. Am. J. Clin. Nutr., 2010.

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