Comer com as mãos – uma experiência enriquecedora para as crianças

comer com as mãos

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O desenvolvimento infantil se expressa pela aquisição progressiva de habilidades motoras, emocionais e de linguagem. Para que isso ocorra é fundamental que o ambiente no qual a criança está inserida ofereça recursos, estímulos e suprimento para suas necessidades e que reconheça e respeite as demonstrações de autonomia que gradualmente se manifestam.

Essa evolução pode ser observada, por exemplo, desde o início da vida pela maneira como a criança irá se relacionar com a alimentação. Primeiramente de forma passiva ao ser amamentada sem o reconhecimento de que é a mãe que a alimenta para pouco tempo depois interagir com a mãe sorrindo, tocando o seio e brincando de mordê-lo enquanto é alimentada. Posteriormente, com o processo do desmame e a introdução dos alimentos, a experiência da criança com a alimentação será mais sensorial e à medida que se desenvolve demonstrará um interesse progressivo em pegar o alimento com as próprias mãos e leva-lo por si mesma à boca.

A vontade e o impulso da criança de comer com as mãos, é um instinto natural e parte importante do processo de aprender a se alimentar. Além de possibilitar uma experiência sensorial ampla ao sentir e ir diferenciando consistência, textura, cheiro dos alimentos, estimula a coordenação motora e enriquece o desenvolvimento emocional. Para a criança, é motivo de grande alegria se alimentar por conta própria.

Toda essa experiência pode trazer algumas preocupações e desconforto aos pais. Primeiro, porque essa liberdade com o alimento retira de cena uma das figuras centrais do jogo, que é quem alimenta a criança. Não é raro as mães se ressentirem desse fato. Outro aspecto diz respeito às queixas relatadas sobre a sujeira de roupas e do próprio ambiente, o que às vezes representa uma sobrecarga de trabalho, mas que não deve limitar essa experiência.

Outra preocupação apresentada pelos pais é que ao comer sozinha a criança brinca com o alimento e com isso acaba por comer menos do que deveria.  O que os pais devem saber é que nesta situação, ao contrário do que pensam, a criança terá a chance de se alimentar com a quantidade suficiente para sentir-se saciada, diferentemente de quando recebe o alimento da mãe, que desta forma determina o quanto a criança deve comer, muitas vezes alimentando em excesso. Cabe aos pais escolher e disponibilizar os alimentos para as crianças, se estes serão caseiros e não industrializados, na consistência adequada a maturidade do filho, respeitando tanto a fome quanto sua saciedade. Com esses cuidados, garantimos para a criança uma alimentação saudável e adequada, sem perder a estimulação da sua autonomia.

Além da aprendizagem sobre fome e saciedade, o comer com as próprias mãos permite que a criança brinque, crie e tenha uma experiência enriquecedora e prazerosa.

Para quem estiver interessado em conhecer mais sobre a experiência de deixar a criança comer livremente, recomenda-se conhecer o método BLW (Baby-led Weaning), amplamente discutido para introdução alimentar e que pode trazer ricas contribuições para a reflexão sobre a alimentação infantil.

O comer é uma aprendizagem, quanto mais natural, livre e prazeroso, melhor será a relação com a comida. Sem pressão, sem forçar, sem excessos.

Por Paola de Souza Rezende e Denise Ely Bellotto de Moraes

Leia mais sobre BLW:

RAPLEY G, MURKETT, T. Baby-led Weaning: Helping Your Baby to Love Good Food (em tradução livre Desmame Guiado pelo Bebê: Ajudando seu Filho a Amar Boa Comida). Vermilion, 2008