E quando a criança seletiva se transforma num adulto “chato para comer”? Repercussões na vida social e profissional.

criança e adulto seletivos para comer 
http://nutrirachelcarvalho.blogspot.com.br/2013/10/disturbio-alimentar-adulto-com-paladar.html

   Dificuldades alimentares são comuns na primeira infância e costumam ser transitórias, geralmente se solucionam com o desenvolvimento emocional. Porém, em alguns casos, o problema persiste anos a fio e dependendo de sua extensão pode desencadear prejuízos importantes ocasionando deficiência nutricional, declínio do crescimento, conflitos familiares e problemas psicossociais.

   Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V), a Seletividade Alimentar é classificada como Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativo (TARE), e consiste na esquiva ou restrição da ingestão alimentar. Tais restrições peculiares no hábito alimentar podem ser levadas da infância para a vida adulta: são as pessoas popularmente descritas como “chatas para comer”. Estas são identificadas com certa facilidade quando alguns erros alimentares ficam evidentes no que se refere à consistência, como o consumo restrito a alimentos macios em forma de purês, e restrição quanto ao grupo alimentar como repulsa aos legumes e verduras.

   Em um estudo com amostra de 2.600 adultos autoconsiderados seletivos, 75% afirmaram que o padrão teve início na infância. Entretanto, os estudos com adultos são ainda incipientes, e não se pode estimar a prevalência da alimentação seletiva nesta população, afirma Nancy Zucker, psicóloga diretora do Centro de Distúrbios Alimentares da Universidade de Duke, EUA.

   Segundo Nancy, crianças podem passar por experiências muito ruins na hora da refeição, como quando se engasgam ou vomitam, deixando marcas desprazerosas sobre certos alimentos. E as lembranças ligadas às experiências alimentares são muito fortes.

   Juyun Lim, pesquisadora da Universidade Estadual do Oregon, ao investigar o papel dos sentidos nas preferencias alimentares detectou casos de sensibilidade ampliada do paladar, ou até mesmo distorção na percepção de cheiros e sabores, de modo que o mesmo alimento, através de seus inúmeros compostos voláteis, é percebido distintamente por dois indivíduos. O paladar é um importante pilar da alimentação, mas não é o único. Em acréscimo, a textura, a consistência, a forma de preparar e a apresentação dos alimentos na hora de servir são importantes fatores condicionantes relativos à aceitação ou repulsa.

   Adultos “chatos para comer” podem enfrentar muitos contratempos na área social e profissional. Eventos sociais e profissionais tornam-se motivo de estresse constante e de constrangimentos, razão pela qual muitos comedores seletivos tentar manter em segredo sua condição. Explicar suas preferencias alimentares ou mesmo lidar com a repulsa a determinados alimentos servidos no próprio prato ou no de outrem pode ser bem complicado.

   Uma vez que as pessoas seletivas costumam ter uma alimentação muito limitada, não são incomuns os relatos em que se passam apuros em viagens internacionais, festas de amigos ou tantos outros eventos que culturalmente envolvem o compartilhar do alimento. Estes podem tanto sair de barriga vazia ou ausentarem-se por não suportar o asco e mal estar.

   Infelizmente, há quem inadequadamente interprete tais restrições como capricho, de modo que ainda há muito trabalho no que se referente ao esclarecimento das pessoas sobre o que é seletividade e neofobia alimentar (medo de experimentar novos alimentos).

   É preciso lembrar que há sofrimento por trás de uma condição que não é uma escolha deliberada, e que a coerção ou abordagem vexatória prejudicam ainda mais o quadro.

   De acordo com Nancy, adultos com dificuldades alimentares costumam procurar por ajuda profissional motivados pelos sentimentos de pânico frente ao iminente perigo de exposição de seu problema em situações como refeições de negócios e eventos sociais, ou ainda, quando passam a se sentir mal por perceberem que por seu comportamento alimentar podem tornar-se um mau exemplo  para os filhos.

   Além dos problemas nutricionais que as dificuldades alimentares podem causar, os problemas sociais e psicológicos, principalmente quando a queixa persiste e se mantém na vida adulta, trazem intenso sofrimento emocional. Portanto, é importante que se procure por profissionais de saúde na ocorrência da manifestação dessas dificuldades. Uma investigação detalhada será o primeiro passo para a compreensão das causas implicadas.  E a partir disso, será possível realizar os acompanhamentos e as orientações necessárias para que o problema seja solucionado, possibilitando a conquista de hábitos saudáveis e qualidade de vida.

Leia mais em: http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2016/12/1838724-adulto-chato-pra-comer-pode-ter-vidas-social-e-profissional-afetadas.shtml (depoimentos).

Por: Júlia Feltrin Ivers e Denise Ely Bellotto de Moraes