O cuidar na infância – quanto mais natural e simples, mais saudável

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Crianças pequenas exigem cuidados delicados e específicos o que frequentemente mobiliza angústia e insegurança nos pais que anseiam fazer o melhor para o desenvolvimento de suas crianças. Em geral, as preocupações principais giram em torno de temas como alimentação, sono, choro, alguns também se preocupam em como educar o bebê desde cedo de forma a não mimá-lo, ou mal acostumá-lo no colo ou com o pronto atendimento ao menor sinal de desconforto.

Para solucionar suas angustias e dúvidas muitos pais procuram por respostas buscando informações, conselhos e truques com profissionais de saúde, amigos, cursos, livros e até redes sociais. Entretanto, ao invés dessas inúmeras informações trazerem tranquilidade, deixam, muitas vezes, questões simples e naturais do crescimento infantil se tornar um problema e o cuidar passar a ser enrijecido, burocrático e difícil.

Algumas orientações são passadas como regras, como horário rígido para dormir e comer, atitudes que devem ser tomadas em determinados meses, na alimentação, desfralde, dentre muitos outros aspectos que deixam a maternagem complexa. Não é a toa que a publicação de livros sobre o assunto é crescente no mercado editorial e encontra um público fiel  não só na demanda de pais inseguros e preocupados como também em uma tendência de um comportamento social que estimula a crença de que as respostas à questões que exigem observação calma e dedicação podem ser encontradas prontas em manuais que ditam o que “deve ser feito”.

Por outro lado, orientações que estimulem os pais a observarem seus filhos em suas especificidades, e que os encorajem a desenvolver sua sensibilidade para captar as necessidades das crianças aprendendo sobre seu funcionamento e agindo a partir disso, do que é adequado a ela, sempre respeitando seu ritmo podem ser muito mais úteis nessa relação de cuidado, que se constrói e se modifica no dia a dia.

Valorizar a maternagem na sua forma livre e intuitiva é importante para não problematizar etapas e comportamentos naturais do crescimento e desenvolvimento infantil, sem criar tensões desnecessárias aos cuidadores e as crianças. O pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott desde 1949 já reforçava essa ideia em seus inúmeros livros, atentando para que qualquer orientação profissional não interferisse de forma negativa no cuidado natural dos pais, mas sim que o fosse no sentido de reforçar e estimular essa relação ímpar.

Em concordância a essa ideia, um profissional da atualidade, o pediatra espanhol Carlos Gonzáles, tem contribuído com muitas questões interessantes para se repensar os cuidados na primeira infância. Ele discute e propõe que se reflita sobre várias “regras” e orientações acerca dos cuidados na infância, como por exemplo, incentivar os pais a pegarem os filhos no colo sempre que estes necessitarem, desconstruindo a ideia da criança acostumar, ficar mimada e até mesmo chantagear os pais com esse comportamento. Recentemente Carlos Gonzáles lançou no Brasil o livro “Meu filho não come!” com uma abordagem diferenciada sobre a queixa alimentar que enfatiza a importância dos pais não pressionarem os filhos a comerem, e reforçando o respeito à criança relacionadas às suas necessidades nutricionais.

As propostas de Winnicott, bem com as de Gonzáles, reforçam o quanto os profissionais de saúde podem contribuir de forma relevante quando sua conduta leva em conta a relação entre o bebê e seus pais. Portanto, é importante que profissionais estimulem as respostas internas da mãe, que só podem ser construídas a partir de seu contato com o bebê, sem que seja necessária a imposição de regras, mas que suas orientações ofereçam um parâmetro sobre o desenvolvimento da criança.

Por Paola Souza Rezende e Denise Ely Bellotto de Moraes 

Para saber mais:

Carlos Gonzáles. Meu filho não come! Conselhos para prevenir e resolver esse problema. Editora Timo, 2016.

D.W. Winnicott. Os bebês e suas mães. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.