A “educação para a morte” e sua importância em nossas vidas

Lutohttp://avafilosofia.blogspot.com.br/2009/01/compaixo.html

 

"A aceitação da morte constitui certamente um dos maiores sinais de maturidade humana, daí a necessidade duma educação sobre a morte, porque a morte, paradoxalmente, pode ensinar a viver”. Oliveira (2002)

Os trágicos acidentes aéreos dos últimos dias causaram profunda comoção e deixou o país inteiro, e não seria exagero se disséssemos o mundo, de luto. Catástrofes desse tipo nos possibilita a entrar em contato com a proximidade da morte e permite que cada um chore suas próprias dores. Ou seja, sofremos não apenas pela tragédia em si, mas também pelas perdas pessoais anteriores.

A morte faz parte do desenvolvimento humano e muitas questões referentes ao tema nos permeiam frequentemente: "De onde viemos e para onde vamos?" "Será a morte o final da nossa existência? Existem outras vidas? Como nos preparar para enfrentá-la? Essas discussões são bastante importantes, e ainda mais urgente para os profissionais de saúde e da educação.

Ainda não encontramos respostas simples e completas para todos esses questionamentos, mas somente possibilidades e teorias. A morte é um dos eventos que mais causa incômodo, angústia e medo ao ser humano. É um confronto à nossa maneira onipotente de encarar as coisas e o mundo, pois não há o que possamos fazer frente a ela.

As diversas culturas encaram a morte de formas diferentes, pois ela não é apenas um fenômeno biológico, mas também uma construção social. Já foi considerada como algo natural ao ser humano e era enfrentada no ambiente familiar com a participação ativa de toda a comunidade que junto com a família expressava seus sentimentos pela perda. Porém, quanto mais avançamos na ciência e tecnologia e prolongamos a expectativa de vida, mais tememos e negamos a realidade da finitude. Em nosso inconsciente, a morte nunca é possível quando se trata de nós mesmos, acreditamos de maneira ilusória na nossa imortalidade. É inconcebível imaginar um fim para nossa vida na terra, e se o fim chegar, será sempre atribuído a uma interferência fora do nosso alcance, pois é inaceitável que seja de causa natural. Sendo assim, a morte está muito associada a algum acontecimento drástico e assustado e, muitas vezes, interpretada como uma punição.

A sociedade encara o assunto como um dos seus principais tabus. Enfrentar a possibilidade da morte, considerando algum tipo de preparação, é sempre evitado a qualquer custo. Parecemos acreditar que apenas falar sobre o assunto já atrai o tão temido fim e aquele que o faz é, na maioria das vezes, considerado mórbido. As crianças são constantemente distanciadas desta realidade, sendo levadas para casa de algum parente e consoladas com histórias de viagens ou idas para o céu quando perdem alguém, considerando que aquela nova realidade seria algo muito “pesado” para lidarem.

Em contrapartida, ao mesmo tempo em que tentamos poupar as crianças da convivência com assuntos que lembrem a morte, nos esquecemos de que ao viver em plena era da informação, elas estão expostas à inúmeros estímulos midiáticos que contém cenas de morte, violência, acidentes, e doenças, sem a devida intermediação de adultos e possibilidade de elaboração. 

As crianças que enfrentam a perda de algum ente de uma maneira não compartilhada ou explicada, logo percebem algo fora do lugar e suas desconfianças e medos poderão se transformar num pesar irreparável, encarando a experiência de maneira traumática e misteriosa, rompendo o vínculo de confiança com os adultos que a cercam.

Em momentos de intensa dor causada por perdas de familiares, ao incluir as crianças nas conversas sobre a situação e ao permitir, dentro dos seus limites de maturidade, que compartilhem das angústias e sofrimento dos adultos, faz com que não se sintam sozinhas na dor, sentindo conforto e apoio.  A vivência da perda nestas condições pode oferecer à criança uma experiência mais favorável com uma visão da morte como um fenômeno mais natural e suportável.

O tema da morte está relacionado com nossas situações cotidianas e ao conversarmos a respeito, estamos falando de vida e sua qualidade. Considerando o fato de que inevitavelmente todos nós vamos nos deparar com a finitude em algum momento, a preparação para lidar com a morte é uma das maneiras de prevenir que a situação fique ainda mais difícil de ser enfrentada. Quanto melhor a nossa saúde emocional antes do luto acontecer, menos complicado será passar por ele.

Sendo assim, a educação para a morte deve ser um tema a ser amplamente estudado e seus resultados, divulgados e debatidos na sociedade. Nas escolas nos preparamos para a vida social, e desta mesma forma, deveríamos também nos preparar para o fim de nossa existência. Nossa educação deveria envolver comunicação, relacionamentos, situações-limite, como perda de pessoas significativas, doenças, acidentes, até o confronto com a própria morte.

Perder alguém muito importante inevitavelmente gera tristeza, traz mudanças na vida, exigindo adaptações significativas no funcionamento social, emocional e até financeiro. O rompimento do vínculo afetivo existente, o nível de aceitação, o tipo de morte, a maneira com que se encara e compartilha a dor, são determinantes na elaboração dessa perda. E todos esses processos precisam ser vivenciados no momento certo, e podem ocorrer de forma mais saudável e natural se a morte for um assunto já “visitado” e enfrentado anteriormente, auxiliando assim aqueles que em vida precisam seguir em frente.

Para se informar sobre “Como falar sobre a morte à uma criança”, acesse: http://www.psiconlinews.com/2015/06/como-falar-sobre-morte-uma-crianca.html

Por Fabrícia Ramos de Freitas e Denise Ely Bellotto de Moraes

 

Referências:

Kubler-Ross, E. Sobre a morte e o morrer. 9º edição- São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2008.

Oliveira, E.C.N. O psicólogo na UTI: reflexões sobre a saúde, vida e morte nossa de cada dia. Psicol. cienc. prof. vol.22 no.2 Brasília, 2002.