Crianças e adolescentes na Era Digital: Quais cuidados devem ser tomados?

   Crianças na Era Digital
http://www.osul.com.br/no-brasil-celular-ja-e-usado-por-82-das-criancas-e-adolescentes-para-acessar-internet/

    Todos aqueles que estão próximos de alguma criança – pais, familiares, amigos, professores, ou outros profissionais – têm se dado conta da importância e interferência cada vez maior das mídias eletrônicas em seu dia a dia.  O crescer na era digital vem sendo pautado pelas constantes interações com a tecnologia e com um “encurtamento da infância”, já que muitas vezes as crianças estão sendo “aceleradas” e estimuladas pelos seus pais, pelas mídias e até pelas escolas a crescerem antes do tempo.

    De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), alguns estudos científicos afirmam que a tecnologia influencia comportamentos, através da adoção de hábitos, muitos deles inadequados desde os primeiros anos da infância. Sendo assim, a prevenção dos riscos à saúde das crianças e adolescentes “conectados” é um assunto atual e global e precisa ser revisto e discutido cada vez mais por todos os âmbitos da sociedade, e principalmente pelos profissionais da área da educação e da saúde. 

    É evidente que assim como existem prejuízos, há também benefícios proporcionados pelas tecnologias digitais e o grande desafio da contemporaneidade é saber fazer o bom uso de tantos recursos na dose certa. Mas quem deve ditar estas regras? Como saber onde encontrar este limite?

   Pensando exatamente nestas questões é que a SBP lançou, no último dia 08, um manual de orientação para médicos, pais, educadores, crianças e adolescentes sobre como lidar com a internet, tendo como foco a “Saúde de Crianças e Adolescentes na Era Digital”. O trabalho foi elaborado em virtude da atualidade do tema e da necessidade de se oferecer orientações o quanto antes para a população. 

   Segundo o documento, é preciso que aconteça, com as crianças e adolescentes e suas famílias, um plano de “dieta midiática” levando em consideração as idades, o desenvolvimento cognitivo e a maturidade de cada indivíduo. Da mesma forma, é importante orientá-los a se protegerem e terem conhecimento de todos os riscos a que estão sujeitos quando conectados às mídias digitais. No entanto, como em qualquer plano de reeducação física ou alimentar, é preciso dar ênfase ao engajamento e participação dos pais, responsáveis e de professores para que os bons resultados de fato aconteçam.  

    O Manual inédito no País foi inspirado em estudos e recomendações internacionais e adaptado para a realidade da população brasileira. Sua execução levou em conta os principais problemas relacionados ao uso excessivo da tecnologia por crianças e adolescentes, que são: o aumento da ansiedade, a dificuldade de estabelecer relações em sociedade, o estímulo à sexualização precoce, a adesão ao cyberbullying, o comportamento violento ou agressivo, os transtornos de sono e de alimentação, o baixo rendimento escolar, as lesões por esforço repetitivo e a exposição precoce a drogas, entre outros.  Todos estes com efeitos bastante prejudiciais para a saúde individual e coletiva, e com graves consequências para o ambiente familiar e escolar.

 Tempo de Tela  

   As primeiras orientações do Manual são referentes ao tempo de uso da tecnologia digital, também denominado tempo de tela. Neste contexto, a SBP sugere que esse período seja limitado e proporcional às idades e às etapas do desenvolvimento cerebral-mental-cognitivo-psicossocial das crianças e adolescentes.  Além disso, o manual sugere que seja evitada ou até proibida a exposição passiva às telas digitais, com acesso a conteúdos inapropriados de filmes e vídeos, para crianças com menos de dois anos, principalmente, durante as refeições ou nas horas que antecedem o sono.

   Crianças entre dois e cinco anos também devem ter o tempo de exposição limitado: no máximo uma hora por dia. 

   Até os seis anos de idade, a orientação é para que as crianças sejam protegidas da violência virtual, pois não conseguem separar a fantasia da realidade. De acordo com o guia, jogos online com cenas de tiroteios, mortes ou desastres e que ganham pontos de recompensa não são apropriados em qualquer idade, pois banalizam a violência como sendo aceita para a resolução de conflitos, sem expor a dor ou sofrimento causado às vítimas. 

   Há também a orientação de que o uso de televisão ou computador nos seus próprios quartos não é recomendado para crianças menores de 10 anos, evitando assim que fiquem vulneráveis a conteúdos inapropriados ou, ainda, que tenham acesso facilitado às redes que lhe representem algum tipo de risco (pedofilia, exploração sexual online, drogas, autoagressão e suicídio).

   Aos adolescentes, a recomendação também é para que não fiquem isolados em seus quartos. É preciso estabelecer limites de horários e mediar o uso com a presença dos pais para ajudar na compreensão das imagens. Além disso, é preciso equilibrar as horas de jogos online com atividades esportivas, brincadeiras, exercícios ao ar livre ou em contato direto com a natureza.  

Diálogo e vigilância

   Conversar sobre as regras de uso da internet, sobre o nível de segurança e privacidade e sobre nunca compartilhar senhas, fotos ou informações pessoais ou se expor a pessoas desconhecidas, também fazem parte das recomendações do Manual de Orientação da SBP. Assim como o incentivo aos pais e cuidadores a monitorar os sites, programas, aplicativos e vídeos que crianças e adolescentes acessam.

   Também é recomendado o diálogo sobre valores familiares e regras de proteção social para o uso saudável, crítico e construtivo das tecnologias, enfatizando a relevância ética de não postar qualquer mensagem de desrespeito, discriminação, intolerância ou ódio. Sob o ponto de vista técnico, a instrução é para que sejam utilizados antivírus, antispam, softwares ou programas que sirvam de filtro de segurança e monitoramento para palavras, categorias ou sites.

 Confira abaixo algumas das recomendações da SBP:

 Para crianças e adolescentes

  • Nas telas do mundo digital tudo é produzido como fantasia e imaginação para distrair ou afastar do mundo real – portanto, não se deixe enganar no mundo virtual; 
  • A senha é só sua, não compartilhe sua senha com ninguém, ninguém mesmo! Única exceção apenas para seus pais que são responsáveis por você até completar os 18 anos, legalmente. 
  • Preste atenção para não adicionar qualquer pessoa desconhecida e jamais marque encontros com pessoas estranhas ou conhecidas apenas da Internet e que enviam mensagens solicitando encontros com você! 
  • Cuidado ao utilizar a webcam, evite a exposição se você estiver sem roupas ou mesmo no seu quarto ou sozinho em qualquer lugar; 
  • Seja quem você é mesmo, sem criar avatares, heróis ou inimigos que nem existem, ou só existem na sua imaginação. Pode ser engraçado, mas nem sempre é brincadeira! Você pode se machucar à toa, fique sempre alerta aos desafios ou confrontos que podem terminar em problemas sérios, colocando sua vida em risco. 
  • Seja respeitoso online e trate os outros como gostaria de ser tratado, afinal você merece respeito de todos também. Evite repassar mensagens que possam humilhar, ofender, zombar ou prejudicar a pessoa que recebe este seu recado. 
  • Crescer e construir o seu corpo precisa de horas de sono e alimentação balanceada e saudável. Se você estiver se sentindo cansado, sonolento, com fome ou sem apetite, ou com dor de cabeça, nas costas, nos olhos ou nos ouvidos, desligue o seu celular ou seu computador, converse com seus pais ou consulte seu médico pediatra.

 Para os pais:

  • Verificar a classificação indicativa para games, filmes e vídeos e conteúdos recomendados de acordo com a idade e compreensão de seus filhos; 
  • Estabelecer regras e limites bem claros sobre o tempo de duração em jogos por dia ou no final de semana e sobre a entrada e permanência em salas de bate-papo, redes sociais ou durante jogos de videogames online; 
  • Discutir francamente qualquer mensagem ofensiva, discriminatória, esquisita, ameaçadora ou amedrontadora, desagradável, obscena, humilhante, confusa, inapropriada ou que contenha imagens ou palavras pornográficas ou violentas; 
  • Recomendar aos seus filhos que nunca forneçam a senha virtual a quem quer que seja, nem aceitem brindes, prêmios ou presentes oferecidos pela Internet, assim como também jamais ceder a qualquer tipo de chantagem, ameaça ou pressão de colegas ou de qualquer pessoa online; 
  • Lembrar sempre que você como adulto, pai ou mãe, e, com a convivência diária, se torna um modelo de referência para seus filhos. Portanto dar o primeiro exemplo: limite o seu tempo de trabalho no computador, quando em casa. Desconectar e estar presencialmente com seus filhos. 

Para conferir na íntegra o Manual de orientações sobre a “Saúde de crianças e adolescentes na era digital”, acesse: http://www.sbp.com.br/src/uploads/2016/11/19166d-MOrient-Saude-Crian-e-Adolesc.pdf

Por Fabrícia Ramos de Freitas