Obesidade infantil – Será que a culpa é mesmo dos pais?

A obesidade é uma doença crônica multifatorial, aparentemente assintomática e de difícil aceitação tanto pelo paciente como por seus responsáveis. Seu tratamento é um desafio para todos os profissionais de saúde, pois envolve mudanças profundas de comportamentos e exige compreensão ampla dos vários aspectos envolvidos, tais como os de ordem metabólica, social e emocional. É difícil também para o paciente e seus familiares que devem estar sensibilizados em relação ao tratamento que implica em longo e difícil processo que exigirá dedicação, persistência e, muitas vezes tolerância à frustração.  

Alguns estudos mostram que pais de crianças obesas se sentem culpados e criticados pela condição dos filhos e, com bastante frequência, referem sentir culpa, raiva e frustração por não saberem como ajudar a criança a perder peso. Outra situação de mal-estar no contato dos pais com os profissionais de saúde, ao procurarem ajuda para a obesidade de seus filhos, é se sentirem responsabilizados e julgados pelo estado nutricional da criança. Toda a pressão e responsabilidade que é depositada nos pais por parte dos outros, bem como as dificuldades que enfrentam para auxiliar as crianças a realizar mudanças em seus hábitos alimentares podem interferir na relação entre pais e filhos, ferindo o vínculo, a relação. Como consequência a esta pressão os pais podem adotar práticas alimentares de restrições, o que pode não só manter o excesso de peso como até agravá-lo.

Neste sentido há de se ter cautela com uma visão reducionista que pode reforçar a ideia de que o tratamento da obesidade da criança depende exclusivamente dos pais ou que a obesidade da criança está diretamente relacionado à dificuldade de imposição de limites.

Será mesmo que os pais são os grandes culpados pelo estado nutricional dos filhos? No Brasil 33% das crianças estão acima do peso porque seus pais são permissivos? Não seria prudente e relevante considerar também questões importantes como, por exemplo, a quantidade de publicidade a que estas crianças são expostas que os induzem a um consumo de guloseimas associado a recompensas, a status, a bem-estar e felicidade? E a falta de informação sobre a qualidade referente aos hábitos alimentares e nutrição na rotina familiar? E os aspectos emocionais e sociais relacionados à história de vida dos pais, da família, sua origem e cultura, bem como a saúde mental de cada um dos membros?

Além de todos estes pontos que são de extrema importância e que, portanto, devem ser conhecidos e considerados pelos profissionais de saúde que realizam tratamento da obesidade infantil, é necessário também que se sensibilizem e de forma empática possam não estabelecer pré-julgamentos. Esta postura favorece o acolhimento e a compreensão das reais dificuldades apresentadas pelos pais em relação à alimentação de seus filhos obesos, o que pode ser determinante para motivá-los na mudança de comportamentos e hábitos de toda a família.

 

Por Fabrícia Ramos de Freitas e Denise Ely Bellotto de Moraes

 

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Referências

Edmunds, L. D. (2005) Parents' perceptions of health professionals' responses when seeking help for their overweight children. Oxford Journals, (3):287-92. Disponível em: http://fampra.oxfordjournals.org/content/22/3/287.long

 

Pierce, J. W.; Wardle, J. (1997) Cause and effect beliefs and self-esteem of overweight children. Journal of Child Psychology and Psychiatry and Allied Disciplines, (38): 645–650. Disponível em: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1469-7610.1997.tb01691.x/epdf