Intoxicação açucarada

Que mal pode fazer oferecer uma tigela de cereal matinal para a criança pela manhã, mandar um bolinho recheado e um suco de caixinha na lancheira, e colocar uma lasanha congelada no forno para ser servida com um copo de refrigerante no jantar? Apesar da facilidade e rapidez que estes alimentos oferecem, todos eles têm o açúcar como ingrediente nocivo em sua composição, mesmo os alimentos “salgados”. Hábitos alimentares pautados em produtos ultraprocessados darão origem à primeira geração de jovens com expectativa de vida inferior à de seus pais, uma vez que são causadores de excesso de peso, doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes, câncer e síndrome metabólica.

 

O açúcar ainda é associado ao açúcar de açucareiro. Falta consciência crítica e habilidade na leitura de rótulos para os consumidores entenderem que a maioria dos produtos ultraprocessados apresenta algum tipo de açúcar ou adoçante em sua composição, mesmo que identificados na lista de ingredientes com nomes complicados e diferentes dos usuais. Além disso, é necessária maior rigidez na legislação dos rótulos de alimentos.

Intoxicação açucaradaFonte: www.gestaodelogisticahospitalar.blogspot.com

De acordo com o estudo Added Sugars and Cardiovascular Disease Risk in Children (veja a matéria sobre este estudo publicada anteriormente no Portal: http://www.saude.br/index.php/articles/111-doencas-cronicas-nao-transmissiveis/409-acucar-de-adicao-e-risco-de-doencas-cardiovasculares-em-criancas-american-heart-association), publicado na revista Circulation pela American Heart Association, é recomendada a diminuição do consumo de açúcares por crianças. Os pequenos entre um e três anos não deveriam ingerir mais do que 25g de açúcar por dia, e no máximo 230ml de bebidas açucaradas por semana, o que equivale a menos de uma lata de refrigerante, que tem 330ml. Tal recomendação é reforçada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que lançou em 2015 uma orientação internacional para a diminuição da ingestão dos açúcares livres entre 5% e 10% do total de calorias das crianças ingeridas no dia. Ademais, um relatório do estudo PREDIMED (Prevención com Dieta Mediterránea) foi publicado no Journal of Nutrition, apontando que as bebidas açucaradas (inclusive as light e sucos de frutas em caixa) são causa do aumento do risco para o desenvolvimento de síndrome metabólica.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 15% das crianças brasileiras com idade entre 5 e 9 anos estão obesas, e uma em cada três estão acima do peso, de acordo com a recomendação da OMS. E qual é a saída para se evitar o consumo excessivo de açúcar no dia-a-dia das famílias? O segredo é ter disponíveis mais alimentos de verdade e menos alimentos ultraprocessados. Isso significa dizer que devemos priorizar frutas, verduras, legumes, cereais e leguminosas, que já apresentam em sua composição o açúcar que garante o aporte de energia necessário para a criança, e evitar alimentos industrializados, ricos em gorduras, sal e açúcares e pobres em vitaminas e minerais. À nível macro, países como México, França e Itália já impuseram impostos elevados para os produtos açucarados. Nos países onde estes impostos não existem, o que vence é a pressão da indústria alimentícia, que é mais forte que a pressão social e o compromisso político de proteção da saúde das crianças.

De acordo com Juan Revenga, biólogo, membro da Fundação Espanhola de Dietistas-Nutricionistas (FEDN) e professor de Ciências da Saúde da Universidade San Jorge, “vivemos um contexto de conotações quase bélicas, em que se observam, de um lado, as empresas que têm interesses econômicos na indústria do açúcar e de produtos industrializados que nos forçam a consumir mais açúcar mesmo conhecendo as doenças metabólicas que podemos contrair no futuro. Do outro lado, temos os governos, com suas políticas de omissão, que não controlam nem legislam de modo a evitar esse consumo excessivo. Quando os executivos dessas empresas se colocaram a questão de diminuir os componentes nocivos de seus produtos, constataram uma queda também de suas receitas. O que lhes interessa é dar ao consumidor aquilo que ele pede: mais açúcar, mais lucros. O cúmulo disso tudo é que existem acordos entre hospitais e laboratórios que recebem financiamento por parte de redes de fast-food, colégios que aceitam máquinas de vending em troca de as empresas lhe construírem uma quadra poliesportiva, ou, ainda, um caso mais irônico: o Plano Havisa (Hábitos de Vida Saudáveis), divulgado pelo governo e financiado por um grupo de empresas de produtos industrializados. O mais dolorido é que esses empresários e políticos não consomem esses produtos, pois sabem dos riscos neles embutidos, como se revela no livro Sal, açúcar, gordura – como a indústria alimentícia nos fisgou, de Michael Moss, vencedor do prêmio Pulitzer”.

 

Por Laís Amaral Mais

 

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