O crescimento das doenças crônicas não-transmissíveis: uma catástrofe iminente

Dra. Margaret Chan 
Diretora-Geral da Organização Mundial da Saúde 
Discurso de abertura no Fórum Global da OMS: Enfrentamento dos Desafios das Doenças Não Transmissíveis - Moscou, Rússia - 27 de abril de 2011

Excelências, Senhores Ministros, senhores delegados, senhoras e senhores.

O crescimento das doenças crônicas não-transmissíveis representa um enorme desafio para a saúde pública . Para alguns países, não é exagero descrever a situação como uma catástrofe iminente. Quero dizer, um desastre para a saúde, para a sociedade, e para a maioria das economias nacionais.. Não devemos esquecer que o que chamamos de "modernização" que contribui para o aumento dessas doenças está sendo acompanhado por uma necessidade crescente de cuidados crônicos para doença mental. As cargas são numerosas.

Gostaria de dizer também que o desafio para combater as doenças crônicas tem algumas dimensões sem precedentes. Durante séculos, o mundo microbiano tem sido a maior ameaça à saúde pública. Depois vieram as vacinas, o milagre das curas, e as melhorias graduais nos padrões de vida e higiene, que ajudaram a eliminar as doenças decorrentes da sujeira. Estas eram questões de saúde pública. Este era o nosso domínio. Este era o nosso trabalho, e nós conseguimos alguns resultados espetaculares.

A batalha para controlar as doenças não transmissíveis é um tipo diferente de luta. Nosso trabalho padrão, coisas como a obtenção de medicamentos essenciais para as pessoas, cuidar delas em hospitais, tornaram-se tão maciçamente demandantes e tão maciçamente caros que ameaçam a solvência do sistemas de saúde, mesmo os mais ricos. Todos concordam que a prevenção é, de longe, a melhor opção. Mas neste caso, as políticas que promovem estilos de vida não saudáveis em populações inteiras são desenvolvidas em domínios além do controle direto do setor saúde. Nós podemos compilar bibliotecas cheias de evidências sobre os perigos do tabaco e do fumo passivo, mas são outros os que fazem as leis para o controle do tabaco e as implementam.

Nós podemos dizer ao mundo que as taxas de obesidade quase duplicaram desde 1980, e podemos contabilizar os custos para a saúde. Mas não podemos policiar os produtos nas prateleiras de supermercado e merenda escolar ou controlar o fato de que os alimentos mais baratos normalmente são os piores para a saúde. Por muitas décadas, a saúde pública chamou a atenção para a necessidade de colaboração com outros setores, especialmente para a prevenção. Por muito tempo, esses setores foram amigáveis, quase setores irmãos, como educação, meio ambiente, abastecimento de água, saneamento e um abastecimento alimentar garantido e seguro. Hoje, muitas das ameaças à saúde que contribuem para doenças não-transmissíveis vêm de empresas que são grandes, ricas e poderosas, movidas por interesses comerciais, e muito menos amigável para a saúde.

Esqueçam a colaboração com a indústria do tabaco. Nunca confie nesta indústria em qualquer circunstância, sob qualquer acordo. Implementem a Convenção Quadro para o Controle do Tabaco. Assim, podemos evitar cerca de 5,5 milhões de mortes a cada ano a um custo menor do que 40 centavos de dólar por pessoa, em países de baixa renda. Não há nenhuma outra "melhor aquisição" para o dinheiro em oferta. As pessoas não precisam fumar, mas elas precisam comer e beber. Hoje, mais da metade da população do mundo vive em ambiente urbano. As favelas precisam que os estabelecimentos das suas esquinas vendam produtos frescos e não apenas alimentos insalubres embalados, de baixo preço e vida longa nas prateleiras. As cidades precisam de um tipo de projeto que incentive as pessoas a caminhar ou andar de bicicleta e desfrutar de atividade física. As crianças precisam de locais seguros para brincar. Os pacientes necessitam de medicamentos essenciais, embalados e com preços que incentivem a adesão.

Aqui está uma pergunta que eu gostaria de dirigir às indústrias de alimentos e bebidas. Será que produzir, comercializar, distribuir globalmente e fazer propaganda de forma agressiva , especialmente para as crianças, de produtos que prejudicam a saúde dos seus clientes, realmente servem aos seus interesses ? Isso faz sentido em qualquer declaração de missão de objetivo social? Sabemos que essas indústrias não são homogêneas. Algumas estão adotando medidas para reformular seus produtos reduzindo o teor de gordura, de açúcar e de sal e para modificar suas práticas de marketing. Estas são na maioria tendências bem vindas.

Senhoras e senhores, Eu tenho um ponto final. Eu acredito fortemente que o aumento de doenças crônicas exige uma reflexão séria sobre o que o mundo realmente entende por progresso.

O desenvolvimento econômico e desenvolvimento da saúde não são de todo a mesma coisa. O crescimento econômico melhora a saúde apenas quando as políticas certas são colocadas em prática. Políticas que explicitamente considerem as consequências para a saúde. A diabetes, que está intimamente associada à obesidade e à urbanização, já está consumindo cerca de 15% dos orçamentos nacionais de saúde em alguns países. A prevalência está crescendo rapidamente nos países ricos, da mesma forma que nos países pobres. Qual é o ganho líquido se os benefícios da modernização e crescimento econômico são anulados pelos custos, com despesas médicas, perda de produtividade e morte prematura devidos a uma doença evitável?

A menos que eles acordem, e considerem seriamente as políticas em geral, alguns países poderão muito bem ver que os benefícios do progresso econômico serão, literalmente cortados e devorados por uma faca e um garfo. Tenha certeza de que, nos dias de hoje, medicamentos, dispositivos e tecnologias cada vez mais sofisticados e caros não serão capazes de salvar a situação. Eles não vão evitar um desastre iminente. Só políticas inteligentes e , perspicazes podem fazer isso. Obrigada.

Tradução - Secretaria Executiva da Comissão Nacional para Implementação da Convenção Quadro para Controle do Tabaco ( CONICQ) - INCA/Ministério da Saúde