Case: Publicidade, Obesidade e Doenças Crônicas

A prevalência de sobrepeso e obesidade na infância e adolescência está em ritmo crescente em todo o mundo, até mesmo em países em desenvolvimento, como o Brasil, onde se observa o fenômeno da transição nutricional1. Atualmente, em nosso país, 13,9% das crianças e adolescentes apresentam excesso de peso2.

O aumento dos casos de obesidade na infância e na adolescência está associado à redução da qualidade e da expectativa de vida da população, pois os obesos apresentam maior risco para o desenvolvimento de uma série de doenças, como as cardiovasculares, a hipertensão arterial, o diabetes, entre outras3.

Segundo um relatório da Organização Mundial de Saúde, divulgado em 2005, as doenças crônicas são as principais causas de morte nos países de baixa e média renda, ultrapassando em mortalidade as doenças infecciosas - cerca de 60% do total4.

O principal motivo dessa crescente epidemia de obesidade é a mudança no estilo de vida da população. Cada vez mais, crianças e adolescentes estão se tornando fisicamente inativos, pois passam a maior parte do seu tempo livre assistindo TV, jogando videogames ou no computador5. Além disso, a alimentação está tornando-se inadequada, com alta ingestão energética, com aumento do consumo de alimentos industrializados, diminuição do consumo de alimentos in natura e aumento no tamanho das porções 6,7. Essas mudanças no padrão alimentar da população são devidas a vários fatores, entre eles o consumo de alimentos fora de casa e as estratégias agressivas do marketing.

A mídia influencia a compra de alimentos obesogênicos enfatizando a aparência, a praticidade e funcionalidade, omitindo o valor nutricional. Desse modo, a divulgação dos produtos é feita abordando-se apenas os pontos positivos e evitando os negativos. Um estudo realizado pela USP relacionou a obesidade nas crianças brasileiras com a quantidade de propaganda de alimentos ricos em açúcar, gordura e sal exibidos na televisão8. De acordo com Pontes (2007) entre as propagandas relacionadas a alimentos, 44,5%  incentivam o consumo de guloseimas9.

As crianças brasileiras são as mais expostas à mídia, assistindo em média 4h 51min e 19 seg por dia, de acordo com uma pesquisa realizada pelo Painel Nacional de Televisão do Ibope (2005). O nosso país está no topo da lista em consumo de mídia televisiva. Nossas crianças passam mais tempo assistindo televisão, cerca de 33 horas semanais,  do que na escola, onde ficam apenas 23 horas por semana 10.

As crianças ainda não desenvolveram maturidade congnitiva para poderem compreender a mensagem comercial em toda a sua amplitude e não dispõem de mecanismos para fazer a crítica necessária ante aos apelos da indústria. Quando pequenas, elas não conseguem distinguir um comercial de brinquedo de um programa de entretenimento11.

Nas últimas duas décadas os gastos da indústria alimentícia com publicidade voltada para o público infantil aumentaram exponencialmente. Segundo Susan Linn, professora da Harvard Medical School, autora de diversos estudos sobre os efeitos da mídia e do marketing comercial em crianças e fundadora da campanha para uma infância livre de comércio, em 1983 eram investidos anualmente cerca de U$$ 100 milhões por ano em anúncios publicitários voltados para crianças e atualmente esse gasto chega a U$$ 17 bilhões por ano10. De acordo com Marion Nestlé, professora do Departamento de Nutrição da Universidade de Nova York, ex-conselheira do Departamento de Saúde dos Estados Unidos e outros órgãos importantes como o FDA, afirma em seu livro, Food Politics, que os custos com publicidade de alimentos se equivalem ao lucro das empresas alimentícias12.

Atualmente, a publicidade está entre os principais fatores que levam a distúrbios alimentares e distúrbios comportamentais, sobretudo na infância. A televisão exerce grande impacto no comportamento das pessoas, pois representa a maior fonte de informações sobre o mundo, sendo capaz de transmitir aos mais diversos lugares, culturas, sobre como as pessoas se comportam, o que pensam, como se aparentam, o que vestem e o que comem. Em função de seu grande impacto e credibilidade, passa a ser um meio de comunicação utilizado para o entretenimento e educação e através das propagandas, possibilita a entrada de marcas e produtos nos lares11.

Muitas campanhas com o objetivo de combater esse crescimento desenfreado da obesidade estão sendo realizadas por profissionais de saúde e autoridades do governo, mas o apoio do marketing é de extrema importância para que se alcancem plenamente esses objetivos. Os hábitos saudáveis devem ser estimulados através uma campanha publicitária promovendo a alimentação adequada, incentivando o consumo de frutas, verduras e legumes. Assim podemos combater os efeitos negativos da publicidade de alimentos na saúde da população.

Por Aline Salvatti

Referências:

1. Coutinho JG, Gentil PC, Toral N. Malnutrition and obesity in Brazil: dealing with the problem through a unified nutritional agenda. Cad. Saúde Pública. 2008, vol.24, suppl.2

2. Wang Y, Monteiro C, Popkin BM. Trends of obesity andunderweight in older children and adolescents in the United States, Brazil, China, and Russia. Am J Clin Nutr 2002;75(6): 971-7.

3. Sinaiko AR, Steinberger J, Moran A, Prineas RJ, Vessby B, Basu S, Tracy R, Jacobs DR J. Relation of body mass index and insulin resistance to cardiovascular risk factors, inflammatory factors, and oxidative stress during adolescence. Circulation 2005;19; 111(15):1985-91.

4. Organização Mundial de Saúde. Prevenção de doenças crônicas. Um investimento vital. Tradução de Marcelo Carvalho Oliveira. 2005. Disponível emhttp://www.who.int/chp/chronic_disease_report/part1_port.pdf . Acesso em 27 set 2009.

5. Bracco M. Atividades físicas e Desportivas na infância e na Adolescência. Rev Paul Pediatria 2001;19: 46-9.

6. Rolls BJ. The roll of energy density in the overconsumption of fat. J Nutr 2000; 130: 268S- 71S.

7. Bray GA, Popkin BM. Dietary fat intake does affect obesity. Am j Clin Nutr 1998; 68: 1.157-73.

8. Almeida SS, Nascimento PCBD, Quaioti TCB. Quantidade e qualidade de produtos alimenticios anunciados na televisão brasileira. Rev Saude Pub; 36(3):353-5.

9. Pontes TE. Análise da adequação nutricional e econômica de alimentos veiculados em propagandas durante o horário infantil nas duas emissoras de maior audiência da TV brasileira. [trabalho de iniciação científica]. São Paulo: Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina. Departamento de Pediatria. Disciplina de Nutrologia. 2007

10. Linn S. Crianças do Consumo, a Infância Roubada. São Paulo: Instituto Alana, 2006.

11. Portal Estilo de Vida Saudável. Disponível em www.saude.br. Acesso em 30 de setembro de 2009.

12. Nestle M. Food politics: how the food industry influences nutrition and health. Berkeley: University of California Press; 2002