Os maus hábitos alimentares começam no berço

Hábitos alimentares

Eles nem pedem, mas já ganham biscoitos, salgadinhos, embutidos, chocolate, sucos artificiais, refrigerantes e outros alimentos industrializados – altamente calóricos e de baixo valor nutricional. Os bebês brasileiros estão consumindo, precoce e frequentemente, alimentos que deveriam ficar longe da dieta deles, constataram duas pesquisas realizadas com crianças de até 1 ano. Encomendado pelo Ministério da Saúde, um dos estudos avaliou os hábitos de 118 mil bebês em 266 municípios. Com os primeiros resultados, divulgados na semana passada, os pesquisadores descobriram que, em vez de seguir as orientações dos pediatras e nutricionistas, os pais introduzem alimentos, naturais ou não, antes mesmo dos 6 meses de vida, quando se recomenda o leite materno como alimentação exclusiva.

Essa é basicamente a mesma conclusão de outro levantamento, recémconcluído, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp): 31% dos 270 pais ou responsáveis consultados na capital paulista já haviam oferecido açúcar a crianças com menos de 3 meses. O ideal é que só comecem a consumir doces, frituras, embutidos, enlatados e café após os 2 anos. A atitude, que tanto prejudica os filhos, claro, não é intencional. Mas tem consequências: esses maus hábitos são difíceis de ser abandonados no futuro.

Segundo a pediatra Elsa Giugliani, coordenadora da área técnica de saúde da criança e aleitamento materno do Ministério da Saúde, o primeiro ano é determinante para a adoção de hábitos alimentares saudáveis ao longo da vida, porque o paladar começa a ser definido nesta idade. “As primeiras experiências são sempre muito fortes. Com a alimentação, não é diferente”, explica. Por isso, bebês que hoje têm uma dieta rica em sal, açúcar e alimentos gordurosos são sérios candidatos a levar esses hábitos para a idade adulta. Além disso, muitos irão padecer, ainda na infância, de doenças crônicas, como colesterol alto, diabetes, hipertensão e obesidade. “Sabe-se que 80% das doenças são fruto dos costumes, e não da herança genética”, diz a nutricionista funcional Patrícia Haiat.

Mesmo alimentos naturais como água, chás, frutas, verduras e legumes são contraindicados até os 6 meses. Causam cólicas, refluxo e até alergias alimentares sérias, que poderão acompanhar a criança no futuro. “Para ingerir algo sólido, o bebê tem de, ao menos, conseguir firmar o tronco para fazer uma digestão adequada”, alerta Elsa. Além disso, eles têm uma quantidade reduzida de saliva e um tubo digestivo ainda imaturo para digerir outros alimentos que não o leite materno. “Em alguns casos, o consumo pode até desencadear doenças autoimunes, porque o organismo vê essa comida como algo estranho”, afirma Fátima Coutinho, presidente da Sociedade de Pediatria do Rio de Janeiro.

No caso específico do mel, o consumo é contraindicado no primeiro ano de vida, segundo a nutricionista Maysa Helena de Aguiar Toloni, autora da pesquisa da Unifesp. “A imaturidade da flora intestinal torna as crianças mais suscetíveis à intoxicação alimentar causada pelo Clostridium botulinum (encontrado no mel), bacilo responsável pela transmissão do botulismo intestinal”, diz ela. No estudo, Maysa verificou que 73% das crianças com menos de 1 ano haviam consumido mel.

“As primeiras experiências são sempre muito fortes. Com a alimentação, não é diferente”

Elsa Giugliani, do Ministério da Saúde

 

Os motivos que levam a uma dieta inadequada dos bebês passam tanto pela correria do dia a dia, que torna mais práticos os alimentos prontos, quanto pelo desconhecimento da importância da amamentação. Para a nutricionista Patrícia, os pais oferecem outros alimentos nos primeiros meses de vida ao filho por temer que o leite materno, ralo e de pouca consistência, não os alimente de forma adequada. “A insegurança vem da desinformação”, afirma. Prolongar o tempo de amamentação, porém, é benéfico. A indicação dos pediatras é oferecer o seio materno, aliado a uma dieta saudável, até os 2 anos, quando a criança naturalmente irá cortar esse vínculo. “O gosto do leite muda de acordo com os alimentos que a mãe ingere. Essa diversidade é importante para o paladar infantil”, explica Maria Elisabeth Moreira, pesquisadora na área da saúde da criança, da Fundação Oswaldo Cruz.

A partir dos 6 meses, os pais podem começar a introduzir alimentos complementares – frutas, legumes, verduras, cereais, tubérculos e até carne moída, em papinhas e sem adição de açúcar ou temperos. Se, por algum motivo, a criança não puder ser amamentada, o leite materno deve ser substituído apenas por fórmulas infantis, os leites em pó próprios para bebês. “O leite integral não deve ser dado para crianças no primeiro ano de vida, pois as chances de elas desenvolverem alergia aumenta muito”, recomenda a médica Fátima Coutinho.

Hábitos alimentares

Revista IstoÉ ago/2009