Doenças crônicas não-transmissíveis e estilos de vida saudáveis: um alerta mundial!

Com o passar dos anos, as doenças crônicas não-transmissíveis (DCNT), tais como doenças cardiovasculares, doenças respiratórias crônicas, diabetes, câncer e outras, inclusive doenças renais, foram tomando o seu lugar dentre a maior causa de morte no Brasil – apenas em 2007, 72% das mortes foi atribuída a este tipo de doença. Por esse motivo, este assunto foi uma das principais chamadas da última publicação do The Lancet deste mês de Maio. Têm-se notado que a prevalência de diabetes e hipertensão arterial vêm aumentando com o passar dos anos, assim como o excesso de peso, com associação da inatividade física e mudanças desfavoráveis na dieta dos brasileiros.

No Brasil, vêm acontecendo importantes práticas de prevenção de DCNT e a mortalidade vem diminuindo a cada ano devido a isso. Contudo, com o aumento do aparecimento dos fatores de risco, existe ainda um grande desafio que demanda ações e políticas que forneçam atenção aos indivíduos afetados pelas DCNT. Estas estratégias de intervenção já são um apelo da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de cientistas renomados. Em setembro deste ano ocorrerá uma Reunião de Alto Nível da Assembléia Geral, sobre prevenção e controle das DCNT.

A revista científica The Lancet vem publicando, desde novembro de 2010, como preparação para esta grande Reunião convocada pela ONU, diversos artigos sobre o tema. De acordo com o que foi abordado por um destes artigos, houve mudança radical no contexto de desenvolvimento econômico e social, marcados por avanços sociais importantes e resolução de problemas de saúde pública na época de 1930. Além desta mudança, ocorreu rápida transição demográfica no Brasil, aumentando o número de adultos e idosos, e consequentemente aumentou renda, industrialização e mecanização da produção, urbanização e maior acesso a alimentos em geral, incluindo os processados, industrializados, aumentando hábitos alimentares não saudáveis, levando à conhecida transição nutricional. Transição esta responsável pelo aumento de DCNT no país.

De 1996 a 2007, a mortalidade por DCNT aumentou 5%, demonstrando a ampliação da carga das DCNT.Entretanto, quando foi feito o ajuste por idade para a população-padrão da OMS, a mortalidade diminuiu 20%, sobretudo e, doenças cardiovasculares (31%) e respiratórias crônicas (38%). Já entre as regiões brasileiras, estudos mostraram uma maior mortalidade por DCNT na região Nordeste em 1996, diminuindo em todas as regiões com o passar do tempo, principalmente na região Sul e Sudeste, deixando ainda as regiões Norte e Nordeste com maiores índices de mortalidade em 2007.

Estimativas da OMS afirmam que, com perdas de força de trabalho e diminuição das poupanças familiares no Brasil, resultantes de apenas 3 DCNT (diabetes, doença do coração e acidente vascular cerebral), haverá uma perda na economia de cerca de Us$4,18 bilhões entre 2006 e 2015.

O plano de ação da OMS para os anos de 2998-2013 está focado em 4 DCNT: doenças cardiovasculares, diabetes, câncer e doenças respiratórias crônicas e seus 4 fatores de riscos compartilhados: tabagismo, sedentarismo, alimentação não saudável e uso prejudicial de álcool. Estas DCNT foram as responsáveis por 58% das mortes no Brasil em 2007 e são, junto com os transtornos neuropsiquiátricos, as principais cargas da doença. Apesar da sua diminuição, resultado do controle do tabagismo e maior acesso à atenção primária, as doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte no Brasil. A mortalidade atribuída ao Brasil em 2004 – 286 por 100.000 pessoas – só é ultrapassada entre os países sul-americanos relatados pela Guiana e Suriname. A taxa brasileira é maior também que a maioria dos países norte-americanos e europeus. Esta carga de mortalidade afeta principalmente pessoas de baixa renda. As doenças cardiovasculares geram, além de tudo, um maior custo referente às internações hospitalares no sistema de saúde nacional.

A inatividade física ainda se mostra como um problema entre os brasileiros – em 1996-1997 apenas 3,3% dos brasileiros relatavam praticar o mínimo de atividade física recomendada pela OMS. Quanto à alimentação do brasileiro, entre meados de 1970 e a década de 2000, houve redução na compra de alimentos tradicionais básicos, como o arroz, feijão e hortaliças e aumento na compra de processados, como as bolachas, carnes processadas e refrigerantes, aumentando, portanto a proporção de energia proveniente de gorduras e gorduras saturadas. Houve, portanto, também um aumento substancial no excesso de peso entre os brasileiros.

Por mais que várias iniciativas para a prevenção e o controle das DCNT tenham sido adotadas nas duas ou três últimas décadas, após a resolução da 53ª Assembléia Mundial da Saúde, o Brasil vem implementando progressivamente um plano de ação abrangente e um sistema de vigilância para DCNT e seus fatores de risco

Por Sarah Warkentin

Leia mais em:

http://www.thelancet.com/series/health-in-brazil 

http://download.thelancet.com/flatcontentassets/pdfs/brazil/brazilpor4.pdf