Pesquisas básicas buscam subsidiar o desenvolvimento de medicamentos para o controle do apetite

Controle de apetite

É cada vez mais acelerado o aumento da prevalência de obesidade na população mundial. Sabemos que a obesidade surge quanto há um desequilíbrio no balanço energético do indivíduo, ou seja, engorda quem ingere mais calorias do que gasta. A disponibilidade irrestrita de gordura, o que caracteriza dietas de sociedades industrializadas, é considerada como fator que contribui para a obesidade, diabetes e doença cardiovascular.

A busca por alimentos palatavelmente agradáveis e muitas vezes ricos em gordura é inata ao ser humano e, associada à praticidade dos alimentos processados, induz a população mundial a se alimentar de maneira inadequada.

Como a preferência por alimentos gordurosos ainda não é totalmente conhecida, foi realizada uma pesquisa na Universidade da Califórnia, em Irvine e do Instituto Italiano de Tecnologia, em Gênova, publicada em julho de 2011 no Proceedings of the National Academy of Science dos Estados Unidos, a fim de melhor conhecer a complexidade da doença obesidade e a compulsão alimentar. Tal compulsão e conseqüente obesidade podem derivar de sistemas biológicos involuntários.

O objetivo dos pesquisadores deste estudo foi avaliar o papel de substâncias denominadas endocarbinóides, ou mediadoras de lipídios, pois não se sabe se estas substâncias estão envolvidas no feedback positivo do mecanismo com origem na boca, que estimula a ingestão de gordura após o seu início. Recentes estudos mostraram que receptores endocarbinóides na língua modularam atividade neural estimulados pelo sabor doce. Além disso, os pesquisadores esclareceram que sinais neurais gustativos provenientes de nutrientes, incluindo gorduras e açúcares, são transmitidos da cavidade oral para o cérebro via nervos do crânio. Esta transmissão ocorre também por meio do nervo vago, que estabelece uma comunicação relacionada à alimentação entre o cérebro e o intestino.

Neste estudo, foram utilizados ratos em laboratório e foram oferecidos 4 tipos de alimentação: uma completa com proporções adequadas dos três macronutrientes, a segunda composta por óleo de milho, a terceira com proteínas e a quarta com açúcares. Foram inseridas cânulas gástricas a fim de drenar o conteúdo gástrico dos ratos antes que chegasse ao intestino delgado. Também removeu-se a comunicação neural que conduz a reação bioquímica entre o intestino e o cérebro, a fim de bloquear esse feedback positivo na produção das substâncias endocarbinóides, transmitido por meio do nervo vago.

O nível de endocarbinóides com o uso das diferentes dietas e metodologia descritas acima foi medido no cérebro e nos tecidos periféricos. Os pesquisadores obtiveram como resposta o aumento de endocarbinóides no segmento jejunal do trato gastrintestinal, mas não em outros tecidos periféricos ou em regiões do cérebro quando foram administradas a dieta gordurosa ou a dieta completa. Já as dietas de soluções de açúcares ou de proteínas não alteraram o nível de endocarbinóides.

Em relação à comunicação neural, observou-se que ao bloquear essa reação, a gordura não induziu a produção dos endocarbinóides e consequentemente não houve o estímulo para ingestão contínua desse macronutriente.

Além disso, os autores citam que a exposição oral à gordura estimula a produção de dopamina, substância relacionada à sensação de prazer e bem estar, sendo esta produzida também após o uso de drogas e álcool. Esses dados revelam, portanto, que o mecanismo de feedback positivo é ativado pela resposta prazerosa que a ingestão de alimentos ricos em gordura produz.

O trabalho sugere que, se essas substâncias endocarbinóides estão envolvidas no estímulo da ingestão oral de gordura, estratégias terapêuticas para bloquear sua produção intestinal poderiam ajudar na redução do consumo excessivo de alimentos gordurosos, contribuindo para o controle da obesidade.

Leia a pesquisa completa em: http://www.pnas.org/content/108/31/12904.full.pdf+html

Por Adriana Nagahashi e Sarah Warkentin