Gordura trans -> você pode estar ingerindo mais do que imagina

Gordura trans

A gordura trans origina-se, principalmente, da hidrogenação industrial de óleos vegetais, processo que permite que os mesmos tornem-se sólidos e mais estáveis em temperatura ambiente, aumenta o tempo de conservação dos produtos, confere sabor e texturas característicos, mas que por outro lado traz prejuízos à saúde humana, como aumento do risco de desenvolver doenças Crônicas Não-Transmissíveis (DCNT). Além disso, a ligação “trans” interfere no metabolismo do colesterol plasmático, aumentando os níveis das lipoproteínas de baixa densidade (LDL) (conhecidas como colesterol “ruim”) e reduzindo os níveis das lipoproteínas de elevada densidade (HDL) (conhecidas como colesterol “bom”).

Em decorrência desses malefícios que a ingestão de ácido graxos trans acarretam à saúde humana e pelo reconhecimento de que o seu consumo é desnecessário ao organismo, ainda não existe um consenso sobre a quantidade segura de seu consumo, porém, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, sua ingestão não deve ultrapassar 1% do valor energético diário da alimentação, que para uma dieta de 2000Kcal seria em torno de 2g/dia.

A partir da constatação dos riscos à saúde que a gordura trans acarreta, vários países iniciaram medidas a fim de diminuir a ingestão pela população. O Canadá foi o 1º país a obrigar sua especificação nos rótulos dos alimentos, em 2005 e, um ano depois, a mesma medida foi tomada pelos Estados Unidos e países do MERCOSUL, incluindo o Brasil.

O objetivo desta regulamentação foi, além de disponibilizar ao consumidor a informação, uma forma indireta de estimular as indústrias a reduzirem os teores desta gordura, já que agora os valores estariam estampados no rótulo.

Observa-se que com isso as indústrias de alimentos têm a possibilidade de “isentar” a gordura trans de seus alimentos diminuindo o tamanho das porções, de modo que, na porção que consta no rótulo o produto apresente no máximo 0,2 g de gordura trans. Desta forma, o consumidor estaria ingerindo-a sem saber.

A figura abaixo é uma boa demonstração disso. Ambos os produtos referem-se ao biscoito Club Social® tradicional, onde a única diferença é o tamanho dos biscoitos. No 1º exemplo a informação nutricional é dada por 26g do produto, no qual a quantidade de gordura trans é de 0 g (1 porção), já no 2º, a quantidade é informada por 50g do produto (1 porção), e neste a gordura trans é de 0,3g. Ou seja, ambos os biscoitos possuem a mesma quantidade de gordura trans, mas como no 1º a quantidade seria de aproximadamente 0,15 g, o fabricante “pode” desconsiderar esta quantidade (inferior a 0,2g/porção) referindo apenas 0g. Conclusão: o consumidor é enganado e ingere um produto sem conhecer de fato a sua composição nutricional.

Club social

Encontra-se também em sites de marcas, como Becel® e Doriana® a informação que seu produto é “livre de gordura trans” pelo respaldo da legislação, já que na verdade possuem gordura trans, mas em quantidade inferior a 1%, por isso, mesmo os alimentos “zero” trans necessitam de atenção. Gordura hidrogenada, óleo hidrogenado ou gordura vegetal podem conter gordura trans em sua composição, por isso devemos ficar atentos aos rótulos que mencionam estes ingredientes.

Em outros casos, a quantidade de gordura trans referida na tabela nutricional do alimento comercializado não condiz com a realidade. O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) (http://www.idec.org.br/ ) realizou testes laboratoriais para verificar a quantidade de nutrientes de certos produtos e comparou com os valores encontrados nos rótulos dos alimentos. O resultado deste teste apontou divergências nas informações dos rótulos que, quando comparadas com os valores obtidos através do teste, informavam valores inferiores de gordura trans (http://www.estadao.com.br/especiais/2009/02/alimentacao_infantil.pdf ). Veja no quadro abaixo os resultados deste teste:

Produto


Ana Maria Muffin Frappé


Magikitos (presunto)


Magikitos (bacon)

Gordura trans (g) / porção disponível no rótulo

0,00

0,4

0,00

Gordura trans (g)\ / porção analisado pelo IDEC

0,3

0,6

1,6

A indústria tem lançado mão de novas tecnologias a fim de diminuir ou retirar totalmente a gordura trans de seus produtos. O processo de interesterificação (http://www.scielo.br/pdf/qn/v30n5/a43v30n5.pdf) , por exemplo, permite a modificação no comportamento de óleos e gorduras sem promover a isomerização de duplas ligações dos ácidos graxos e sem afetar a grau de saturação do mesmo. Outra alternativa encontrada pela indústria é o uso de óleo de palma, que sem utilizar o processo de hidrogenação, consegue manter características de conservação, sabor e crocância dos alimentos, mas por ser rico em gorduras saturadas também acarreta prejuízos a saúde. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (ABIA) após a transição da indústria para alimentos “baixo trans” a participação do óleo de soja como matéria prima passou de 79% para 35% dando lugar para o óleo de palma que representa 47% da matéria prima utilizada pela indústria atualmente.

Muitas indústrias ainda não tomaram medidas para eliminar a gordura trans dos alimentos, mas sua redução deve ocorrer ao menor nível possível e deve ser substituída preferencialmente por gorduras insaturadas por seu efeito protetor para o sistema cardiovascular. Ao ler os rótulos dos alimentos deve-se atentar às quantidades tanto de gordura trans quanto de gordura saturada, pois a substituição de uma pela outra não é uma alternativa adequada. A leitura e compreensão das informações dos rótulos dos alimentos é a ferramenta disponível para a realização de escolhas mais saudáveis.

Sugestões de leitura 
http://www.dpaslac.org/uploads/1183130633.pdf 
http://www.scielo.br/pdf/abc/v90n1/a12v90n1.pdf  
http://nutricao.saude.gov.br/documentos/nota_imprensa_gorduras_trans.pdf

Por Christine Kochi Golin