Alimentação saudável para a criança: Quando começar?

Ao ver esse título, intuitivamente, você já pensou (ou deveria ter pensado): “Logo que nasce, oferecendo para a criança apenas o leite materno e nem outra coisa a mais”.

Esta resposta está completamente certa; contudo, eu quero lhe somar mais uma informação. A alimentação saudável para a criança deve ser iniciada antes mesmo dela nascer. Agora você pode me perguntar: “Como assim?”.

Bom, vamos lá.  A literatura científica aponta que a população brasileira tem se alimentado cada vez pior, tanto crianças como adultos, consumindo cada vez mais produtos altamente processados, de baixa qualidade nutricional e de alta densidade calórica, tornando-se assim o padrão vigente em muitas casas.

 Deste modo, como estamos falando de hábitos alimentares, os futuros pais, que não possuem uma alimentação saudável, devem se preparar para incorporar estes novos hábitos em sua rotina diária o quão antes possível. Mudança de hábito não é algo tão simples, que pode ser feita do dia para a noite (a decisão pode ser tomada, mas a incorporação e a manutenção dos hábitos levam mais tempo), mas é necessário que a pessoa identifique ou busque ajuda profissional (isso exclui blogueiros com dietas da moda!) para identificar as falhas e contorna-las.

A mulher – futura mãe – que está gerando uma criança em sua barriga e que incorporou estes hábitos alimentares saudáveis, começará a contribuir positivamente para a formação do hábito alimentar de seu filho, uma vez que ele experimentará diferentes sabores decorrente da passagem de componentes da alimentação para o líquido amniótico. Essa experiência permitirá que a criança    crie novos registros referentes a diferentes sabores, facilitando a incorporação de novos alimentos quando chegar a hora certa.

Depois do nascimento, esse “aprendizado de sabores” continuará por meio da prática do aleitamento materno exclusivo. Para suprir as necessidades nutricionais do lactente, o leite materno sofre constantes alterações em sua viscosidade e sabor, proporcionando novas experiências gustatórias para a criança, aumentando a “pluralidade do paladar”. Portanto, um passo a mais na caminhada em prol do estabelecimento de uma alimentação saudável.

É importante falarmos em aprendizado de sabores, porque é assim que ocorre a formação do paladar. Do ponto de vista adaptativo, nascemos com a preferência para alimentos doces; este é o único sabor que não precisamos aprender, todos os outros precisam ser experimentados diversas vezes para serem incorporados. E é aqui, neste momento, em que o leitor deve estar ligando os pontos do porque eu ter chamado a atenção para a alimentação dos pais antes mesmo da criança nascer logo no começo do texto.

Durante a infância, podem-se destacar três períodos críticos da alimentação da criança: aos seis, 12 e 24 meses de vida; os quais representam um processo de evolução da prática alimentar, com a interrupção total do aleitamento materno para depender da alimentação da família. Se nestes momentos a família não tiver hábitos alimentares saudáveis, a introdução de novos alimentos não será adequada e o paladar da criança será formado por alimentos ricos em açúcares simples (p. ex. refrigerante na mamadeira e chocolate) e sal (macarrão instantâneo e salgadinhos de pacote), o que estimulará os registros inatos da criança, promovendo desde a mais tenra idade comportamentos alimentares prejudiciais para a saúde.

Além disso, a formação dos hábitos alimentares não se dá apenas por questões fisiológicas ligadas ao aprendizado dos sabores, mas também pelo exemplo dos pais/responsáveis. Por isso, é tão importante que esses hábitos sejam construídos com tamanha antecedência, pois dará segurança aos pais quando pressões por parte da família, sociedade e, especialmente, da mídia aparecerem, forçando a barra para o consumo de alimentos inadequados para qualquer ser humano, especialmente crianças. Se formos capazes de promover estas alterações em nossos hábitos e dos nossos (futuros) filhos, daremos um importante passo para conservação de nossa saúde e bem-estar, modificando o panorama negativo de aumento de sobrepeso e obesidade que vivemos atualmente em nossa sociedade. Nunca é cedo demais para começar a mudança.

Jonas Augusto Cardoso da Silveira

Alguns artigos para aprofundar melhor o tema

Birch LL & Doub  AE. Learning to eat: birth to age 2 y publicado no The American Journal of Clinical Nutrition. Em 2014. G.

Monteiro C. A, et.al. Ultra-processed products are becoming dominant in the global food system. Publicado em obesity reviews em 2013.

Rangel A. Regulation of dietary choice by the decision-making circuitry. Publicado em ature America em 2013.

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