Todo consumo é uma forma de expressão, logo de
pertencimento.
Dependendo do que se consome, e do tipo de fome,
muito se diz a respeito de crenças, saberes, prazeres, memórias
daquele que se deixa flagrar consumindo - que, entre tantos outros
gerúndios, pode significar olhando, comprando, usando, trajando,
entendendo, trocando, desejando, sorvendo, gastando, aproveitando,
desperdiçando, ingerindo, digerindo, comendo.
Aos desavisados, é sempre tempo de informar que
consumir não é um privilégio desta contemporaneidade capitalista
e consumista.
Segundo o primatólogo e antropólogo britânico
Richard Wrangham, o consumo de alimentos é parte significativa do
processo evolutivo dos homens, especialmente quando, por necessidade,
passaram a usar o fogo no seu preparo.
O ato de cozinhar foi uma novidade social revolucionária
por transformar a sociedade, reorganizando-a não apenas ao redor
da mesa, compartilhando refeições em horários conjuntos, mas ao
redor do fogo, criando laços sociais de adesão, rituais e cerimoniais,
pois o elemento festivo está no preparo e no tipo de alimento a
ser preparado.
Ao mesmo tempo, este ato forneceu ao corpo mais
energia do que se obtinha no passado, quando o homem era um animal
coletor que sobrevivia com comida crua, fibrosa e facilmente deteriorável.
Com esta mudança de comportamento, a dieta ficou mais saudável e
segura, mais rápida de ser ingerida e digerida devido aos alimentos
macios, e também mais nutritiva. E foi desta forma que os humanos
modernos puderam evoluir, desenvolvendo a postura ereta e o cérebro
grande, o que nos diferencia dos primatas.
Traçando um paralelo com a dieta atual, inserida
na acelerada cultura fast em que produtos são pré-preparados para
grandes viagens logísticas e são "bombados" com suplementos,
complementos, conservantes, estabilizantes, aromatizantes, flavorizantes…,
Wrangham pontua que as pessoas se adaptaram aos sabores, porém não
levam um estilo de vida condizente com esta super-alimentação.
"Nossos corpos estão desenhados para maximizar
a quantidade de energia que obtemos dos alimentos. Então somos ótimos
em selecionar os alimentos que fornecem muita energia, Mas ingerimos
muito mais do que precisamos. Isso não é adaptativo", articula,
referindo-se ao sedentarismo, à obesidade, às disfunções na saúde
das pessoas e da saúde pública como um todo.
De fato, hoje se vive com mais acessos e excessos,
em uma cultura hiperbólica e imagética de alimentos para o corpo,
para a mente e para a alma divulgados em massa por múltiplas plataformas
formadoras de opinião. Esse processo non stop desemboca em um transbordamento
de informações, gerando certa dificuldade em sorvê-las, digeri-las,
utilizá-las.
Recebemos muito mais do que precisamos, do que
podemos processar.
Isso vale para uma idéia. E vale para uma refeição
também.
Afinal, vivemos em uma época em que a indústria
de alimentos promove o consumo de altas concentrações de energia
na forma de produtos saborosos, de alta densidade energética e de
custo relativamente baixo. Por outro lado, a globalização faz com
que esses mesmos produtos sejam distribuídos nas prateleiras de
todos os cantos do mundo, divulgados pelas mesmas campanhas publicitárias,
movimentando altas cifras no mercado de investimentos e padronizando
os gostos: são os desejos de consumo modificando o perfil alimentar
da população do planeta.
A esse pensar soma-se a mediação da sensação fast,
que modifica temporalidades e reestrutura hábitos com velocidade
nunca vista: o mercado lança novidades incessantemente; que circulam
insistentemente na mídia convencional (televisão, revista, rádio,
jornal, outdoor…) e nas novas mídias (celular, blogs, e-mails, youtubes…);
que mobilizam on-line os consumidores; que desejam imediatamente
a idéia da posse de determinado produto ou serviço; que os adquirem
instantaneamente e divulgam suas aquisições; que deixam de ter sentido
com outras novidades que se tornam o happening do momento; e tudo
se repete num moto-contínuo que movimenta um mercado universal e
bilionário e que localiza e situa bilhões de pessoas que aprenderam
a viver dessa forma.
Mudar o conceito que se tem sobre alimentação
é complexo. Depende de uma nova cultura nutricional que envolve
uma reestruturação dos sistemas de produção em escala global, criando
novos parâmetros locais para uma dieta adequada àquilo que as populações
efetivamente necessitam para viver com qualidade e saúde.
Agora, mudar os seus hábitos de consumo, incluindo
a prática de exercícios físicos adequados e uma boa orientação sobre
o que é você pode ou não comer, preferencialmente sem privações
e sem perder o prazer do sabor, isso é bem mais fácil.
E só depende de você.
Concluindo, não foi por acaso que Brillat-Savarin,
grande connaisseur da fisiologia dos gostos, elaborou a máxima "Dize-me
o que comes e te direi quem és".
Oras, faça o melhor por você mesmo.
Afinal, e vós, quem sois?
*Mestre em Comunicação e
Consumo pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, autora da
dissertação "Comunicação e Consumo de Cultura Fast Food"
e escritora (literatura infanto-juvenil, dicionários de citações
e negócios).